terça-feira, 30 de outubro de 2012

a harmonia das três graças :: 031


as três graças andavam livres sob o sol seco do planalto central
.
os jeans cintilavam os brilhos aplicados
os saltos finos arranhavam o piso irregular...
nada abalava a harmonia
no olhar sorridente das fotografias
.
.
nem o árido do barro avermelhado
nem a acidez do cimento esfarelado
.

eu era o vento e não sabia... :: 030


certa cara de menina sardenta
mãos envelhecidas com anel
olhos [ingênuos] pequenos pretos atentos
ancas de parideira 
respiração de guerreira
voz de pequena sereia
::
ecoa a pergunta ao vento... quem sou eu?!

e jamais tu me plantes em teu peito, eu cresceria :: 029


cresci
me vi, me plantei, reguei e deixei morrer...
.
.
a perda do tempo
se confunde
com uma perda muito maior [de mim mesma]
.
e estar comigo,
mais que estar sozinha,
dói profundamente...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

o cravo saiu ferido e a rosa, despedaçada :: 028


fechei todas
as cortinas e janelas
para as plantas não fazerem mais fotossíntese
.
estagnar a vida
.
terra seca
sem chuva, nem vento dentro da sala:
niguém ouviu o grito delas...

plus je connais les hommes, plus j'aime mon chien :: 027


como posso, meu caro
escrever-lhe poesias novas se não mais acredito no amor?
.
não posso, não escrevo
.
como posso dizer, sem palavras, então
que não acredito mais no amor sem parecer piegas?
.
como ser um desiludido de amor perdido
sem nunca ter achado?

o desejo é o que torna o irreal possível... :: 026



sente-se incompreendido
no entanto talvez nunca quisera se fazer compreender
porque é consciente de sua complexidade
.
me conta seu pesadelo onde caiu de cara no chão
e me culpa por isso
::
um dia sumo.
um dia levanto sozinha do meu tropeço.

meu ponto pacífico, fica no atlântico... :: 025


  comprou uma ilha
.
onde vai morar por 18 meses
duas gestações de si mesma
e do esperar pela vida
.
a ilha é feita de signos,
livros, traças, pedra, areia e uma árvore
para qualquer sombra de esperança de voltar...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

o amor comeu na estante todos os meus livros de poesia :: 024

 
o sintoma do amor
aparece quando se deixa
de escrever poesia
.
ele é incongruência, impossibilidade
ela é exatadião abstrada
.
.
a poesia
é o amor mais seguro que existe.

e onde buscas o anjo, sou mulher :: 023


 reatar: atar de novo
::
apertar e dar nó
ama.rrar
.
disse que queria reatar
remendar o amor
retardar: tardar de novo
::
e eu já fui...

o meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa... :: 022


abriu a caixa de ferramentas
e operou a sangue frio
.
um esfacelar-se por dentro
.
silêncio agonizante, como quem volta da guerra:
suas entranhas espalhadas pelo chão
misturadas às nossa roupas
...
um pedaço do meu próprio corpo seu.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

...e paredes pintadas. ninguém sabe... :: 021


ainda paira o vazio no ar
quanto mais se preenche de móveis
mais vazio fica
.
não havia pressa
hoje há urgência
pressa de presa fácil:
(a)preço de mim
::

salvem a professorinha! :: 020


um simples traço
uma simples palavra
um simples convívio
para toda essa complexidade de viver para aprender e ensinar
::
viver-se e ensinar-se
aprender-se para viver
ensinar para continuar-se
...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

deixar você ir, não vão ser bom, não vai ser... :: 019


dor de perda daquilo que não volta mais
.
só (!) o tempo pode curar
.
não desejava que ainda tivesse dor para doer
mas tem
então que doa de uma vez
de toda vez
que me liberte.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

onde vão parar os guarda-chuvas perdidos? :: 018


 reacostumando
a viver só
.
reocupando
espaços da casa toda
reencontrando-se?!
::
ou só a perspectiva desse re-achar-se nos guardados
que parece acomodar os sentimentos?

porque nem toda feiticeira é corcunda... :: 017


muito mulherzinha
::
unhas feitas
depilação em dia
anelzinho de dedo de pé
batom rosado
.
quando se despe de tudo isso,
é pura machesa feminina

aprendi novas palavras e tornei outras mais belas... :: 016


essa vontade de escrever
que viola o corpo
acúmulo de palavras que precisam ser escritas
p.r.e.c.i.s.a.m
.
::
.
precisão:
a importância do escrito
tanto maior quando lido.

tenho apenas 2 mãos e o sentimento do mundo... :: 015


 deja vù de corpos
perdas e danos
abrigo e acolhimento
.
poucas vezes teve a cabeça 
tão chacoalhada de maneira tão
delicada e segura:
damage

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

e foram felizes para sempre... :: 014

 
o sapatinho de cristal
quebrou
espatifado na testa
cabeça sangra muito 
minha mãe sempre dizia
..........
sutura: nove pontos
alinhavados com finura de princesa

das coisas que [ainda] não fiz - coragem :: 013


ter o cabelo da marilyn
cantar [aprendendo ou não]
ter um cachorro
dançar balé contemporâneo
abolir todas as reuniões
cometer um crime hediondo
::
e... comer cupcake!

saiu pra rua como quem foge de casa... :: 012



faz-se diferente
pelo exotismo da coisa
erra o caminho de volta
todo dia
de propósito
.
não sabe se chega
nem pensa que acha

um só minuto e, no entanto, nesse minuto de beijo... :: 011

 
teve amor e uma história
virou livro
teve paixão e algumas promessas
virou filme
teve olhar e flerte manso
virou do avesso
.
o verdadeiro amor é aquele de um minuto

como dois e dois são cinco :: 010


 recomeça do meio
porque só sabe assim
aos trancos e barrancos
.
não pertence
nem ao menos está contida
o conjunto é vazio
::
nunca se enche [por completo]

fecho-me em copas :: 009


 sentiu-se tão vulnerável
peça de baralho sem naipe
des.carte vazio:
jogada sem par
...
paciência
...
leque de espadas nas mãos:
cortem as cabeças porque coração não há mais!

já que eu não posso te levar... :: 008

 
que a solidão
que me resta
seja ao menos palatável e macia.
que seja escrita em verso
útil
cem mil vezes repetida:
vida
.