sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

o meu lugar é caminho de ogun e iansã... :: 160



cada vez que me aproximo
menos compreendo...
como quem mergulha num líquido viscoso
achando que é mar aberto
::
nada se vê de límpido
nenhum sossego
ou ímpeto
.
.

se quiser voltar, tá perdoado... :: 159



a ansiedade é pressa de si mesmo
.
pressa de viver
aquilo que nunca pode ser vivido
.
pressa de cometer os mesmos erros
mas de pensar melhores palavras para dizer
.
exercitar o real
daquilo que até hoje parece ter sido só teatral...

repara bem no que não digo... :: 158


...
esbarrei na rua com um cego contador de histórias
cada cinquenta centavos deixados em sua latinha
rendia uma narrativa fantástica
que os passantes ouviam
espantados e curiosos
.
botei cinquenta reais
mas como não fez barulho no atrito com o metal
nenhuma história me foi contada.

domingo, 10 de novembro de 2013

eu gosto dos que tem fome, dos que morrem de vontade... :: 157


tomou-lhe pela cintura
como há muito não fazia...
.
no instante
em que deixou de ser sua
ao invés de ser nenhuma
passou a ser
única... naquele dia
:::

o samba é o filho da dor, o grande poder transformador... :: 156


.
.
.
tem horas que a dor
parece bênção
.
agradeço por ainda doer...
porque só dói o vivido
e, mesmo de sentimento passado
desse jeito ainda é sentido
.
e tenho dito, e tenho tido...

sábado, 9 de novembro de 2013

e voltou no derradeiro show com dez poemas e um buquê, eu disse adeus... :: 155

...
deixara de desejar o que era antes
estava determinada pelo futuro incerto
e discutia com seu inconsciente em sonhos
de violência e controvérsia
.
a fome é só um sinalizador pra vida
não é necessário servir-se do prato quente agora
e a noite, meu bem, é uma criança... distraída
::

terça-feira, 5 de novembro de 2013

na varanda, quem descansa, vê o horizonte deitar no chão... :: 154



 ::
de todas as ânsias burguesas
a que mais me comove
é a da varanda própria
.
a varanda é rede
é ponto de chegada, de partida e de descanso
é teto sem parede
é o debruçar-se em qualquer canto...


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

o medo é uma casa aonde ninguém vai... :: 153



é hora de encarar de novo
os medos
.
acreditar nas raízes do chão 
e plantar-me em solo desconhecido
:
voltar a crer que posso florescer
também em chão virgem,
parte intocada do meu ser...
.
::

terça-feira, 22 de outubro de 2013

no tapete atrás da porta, reclamei baixinho... :: 152

 ,
as maritacas voam de volta
e o calor invade o recinto...
a tarde cai tão dura quanto a vida
que tem vista pro concreto
.
o barulho é de engarrafamento iniciando
enquanto no horizonte, a floresta se faz muralha
e eu já me despeço
,

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

mentiras sinceras me interessam... :: 151


::
moro ao lado de um asilo público
durmo ouvindo gritos dos maus tratos
que a velhice impõe ao mundo
.
do canto da janela do banheiro
[meu lugar preferido para chorar]
converso sempre com uma senhora de muitos anos
.
graças ao seu alzheimer somos amigas de infância...

terça-feira, 1 de outubro de 2013

todo dia eu só penso em poder parar... :: 150

.
.
.
duas voltas na chave, três na tetra e tranca de cordinha: insegurança obsessiva de viver
duas voltas na chave e duas na tetra: vai só na padaria...
duas voltas na chave e uma na tetra: vai só na portaria...
duas voltas na chave: vai só na garagem...
uma volta na chave: vai só até a lixeira...
porta encostada: vai só dar uma olhada no corredor...
vão aberto: vai ser livre hoje
.

todo fim de mundo é fim de nada é madrugada e ninguém tem mesmo nada a perder... :: 149


:
toquei-lhe a alma
porque ela já estava ali
à flor da pele
.
mas flor nenhuma
brotou no seu jardim
porque logo foste embora
e nem alma, nem pele, nem jasmim...
.

faça sua parte, eu sou daqui eu não sou de marte... :: 148



voltou a casa que não tinha espelhos
.
a cara dos moradores era pálida e inexpressiva
nos porta-retratos sorriam figuras desconhecidas
no lago a água turva nem refletia a luz
os metais eram escovados
.
ninguém sabia o reflexo de si mesmo
.
tive a impressão de que nem se conheciam entre si, entre nós

pra lá de onde o vento faz a curva... :: 147


a pedra bateu na vidraça
que estilhaçou
.
a pedra varou a sala da casa
e assentou-se na poltrona do canto
que acomodou
.
a pedra, a vidraça, a poltrona, o canto
:
partes do meu corpo todo pela casa invadida

sábado, 14 de setembro de 2013

não quero choro nem vela, quero uma fita amarela... :: 146



 quis tocar noel
.
passei café
catei violão, guardado no cantinho
.
feliz da vida...
.
a ré estourada bem no cavalete
.
mas a filosofia me auxilia
a viver indiferente assim, nesta prontidão sem fim...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

eu juro que é melhor não ser o normal... :: 145



no fim do assunto
ficou parecendo
que o louco era ele...
.
não temia ser
considerado louco
tinha medo mesmo era
do fim
...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

eu não encho mais a casa de alegria... :: 144

.
não me encaixei
em nenhuma das lacunas
me espremi,
me tornei de todo jeito...
,
não houve jeito
para ser imaginado:
sou palavra fora de dicionário
!

vai e diz, diz assim, que eu chorei, que eu morri de arrependimento... :: 143

...
eu vi no fim da tarde
o seu passo cansado pra casa
.
e o meu choro preso 
daquilo que já se foi e que não volta mais
.
nem que pegasse o caminho mais longo...
nem que eu chorasse até alagar a rua
e me ilhasse nesse esperar...

o amor é grande e cabe no breve espaço de beijar... :: 142

::
tem cidades que merecem ser beijadas
tem lugares que merecem ser amados
tem amores que precisam ser vividos
e desejos que extrapolam ser sentidos
.
acreditou, hoje mesmo
poder ser paris
o rio de janeiro

vermelhos são seus beijos, quase que me queimam... :: 141

¨
fotografou fragmentos do corpo:
seio esquerdo nádega direita umbigo boca
.
pensou que cada corpo nu extrapola sua beleza
no que tem de poesia desvendada
.
e cada parte fotografada enviou para o antigo amante
junto com uma caixa
impregnada do cheiro daquele instante...

sou mais macho que muito homem... :: 140

.
deslumbrara-se numa paisagem errante...
que era o próprio espelho de casa
.
não gostava
.
nem de todo desgostava...
.
parecia uma lagoa rasa:
de perto logo se via o fundo
e pouco mais perto, se perdia no próprio mundo
.

e vê se me dá o prazer de ter prazer comigo... :: 139

;
reféns do narrativo
nunca oralizado
.
fuzila em tiros de cores
os bichos que vivem em seu interior
sangrento e frio
.
narrativa sem sentido não é história contada
é só sequência de acontecimentos perdidos

rompi com o mundo, queimei meus navios... :: 138

::
esperava que as portas se abrissem mas, o sensor não funcionou
foi de encontro ao vidro
.
soco duro da cabeça na transparência
,
olhos cintilaram de ambos os lados
e então agarrou-se como uma ventosa
...
a porta abria e fechava freneticamente, mas se acostumara ao movimento
e nunca mais se seduziu pelo vão de ar
.

você disse que não sabe se não, mas também não tem certeza que sim... :: 137

.
peculiar espacialidade doméstica
:
peças impecavelmente modernas
ao lado de eletrônicos ultrapassados,
objetos de arte de colecionador
junto do sofá de chenile puído há mais de década
.
conforto, explicou
.
enquanto aguardava a tv de válvula esquentar para ver seus filmes anos 40...

sábado, 3 de agosto de 2013

diz quantos desastres tem na minha mão, diz se é perigoso a gente ser feliz... :: 136

::
eis que o todo vira parte
.
e dorme com mãos de pedra
que afundam no lençol macio até o chão
.
quanto mais se preserva
mais está exposta 
nesse texto que parece uma leitura de mão
imposta
.
.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

me ajuda a cantar, põe um sorriso na minha cara... :: 135

 

se especializou 
no sorriso dos anjos
.
sorriso de quem dorme
para jamais acordar
.
nenhuma trajetória é linear
e em toda abstração vivida
ainda faz sorrir os anjos sem vida.

o mundo é uma escola, a vida é um circo... :: 134


.
não aceito pagar
direito autoral
por aquilo que imaginei
.
fui lá
fingi quem queria ser 
num teatro imaginário
construído de ideia
só para tentar te entreter...
 

rezando baixo pelos cantos por ser uma menina má... :: 133


tem dias que encara a gente de frente
como cão brabo em dia de chuva
e em beco encurralado
.
nesses dias a existência é tão vazia
que me divirto mais com amigos restritos
que com os convencionais
.
sorte que o tempo se deixa recomeçar em 24h... sento, e espero.

palavras, momento, palavras ao vento... :: 132



 você mudou muito e não te entendo
.
o idioma que um dia falamos com fluência perdeu-se com o vento
...
eu inventei palavras novas
:
:
criei neologismos, falei esperanto,
fiz mímica, analogias
enquanto você ficou esperando
a legenda perdida em ventania...

sexta-feira, 10 de maio de 2013

o mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede :: 131



no futuro as pessoas serão famosas por apenas 15 minutos, disse warhol
no futuro o futuro terá 15 minutos
::
no futuro a famosidade terá 140 caracteres e ninguém saberá o que ou quem veio primeiro
porque a memória do futuro será mais curta que 15 minutos
salvo apenas a dos HDs de 15 mil gigas
::
que continuarão a nos lembrar que 15 minutos servem
pra quê mesmo?!

porque quando se é branco como o fênix branco e os outros são pretos, os inimigos não faltam... :: 130



sim
o inferno são os outros
o inverno é para poucos
o moderno nem sempre é novo
o caderno guarda o lado louco
o eterno se faz de tolo
o que é externo faz-me por dentro outro...

o mundo é portátil pra quem não tem nada a esconder... :: 129


quase...
quase cinza
quase perto
quase amor
quase (a)mar
::
aquilo que não é, mas sendo, é a deformação do que queríamos...
.
quasimodo do infinito

quinta-feira, 25 de abril de 2013

é o vento ventando, é o fim da ladeira... :: 128



se vier, e espero e quero muito que venha
:
trás poesia
trás violão
trás planta viva
.
trás pensamento de vida nova
trás lamento, trás prosa
que eu levo vento

...

pra amolecer o mundo e seu coração de esfinge... :: 127

:
gradativamente acostumo-me a ver
que as coisas nem sempre são
aquilo que queríamos que fossem...
muitas coisas não são...
.
acostumo-me ou conformo-me?
.
decifra-me ou devoro-te?
.
perdoô-me ou traio-te?

o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente... :: 126



eis o meu tempo 
relógio do meu corpo
organismo quase independente de mim
.
meu momento é já
é agora
e sempre quero mais, não há dúvidas
e quando já não quero mais, é nunca.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

dizem pra você responder, dizem para você cooperar... :: 125

.
não acredita em palavras
nem escritas nem faladas
nem as minhas, nem as de ninguém
não acredita em palavras escritas e engolidas por mim
.
não acredita em palavras
e eu que sempre vivi de palavras!
.
não acredita em mim
.

os óculos do john ou o olhar do paul? :: 124

.
.
 faria uma gincana: cada um diria uma palavra.
tentaria então me compor em frases, como quebra-cabeças,
tentaria montar-me com sujeito e objeto direto.
me quebraria em 100 peças se tivesse a certeza insana
de que me montaria diferente
.
nem me reconheço
e já me quero outra

só a bailarina que não tem... :: 123

 :
só soube me dizer
pela negação daquilo que não soube ouvir

.
paradoxo lastimável
de definição de existência
paradoxo inefável de existência sem definição

.
construo-me

entre palavras, ditas e não ditas
sins e nãos: ponto de partida


.

tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar... :: 122


acordei e não era eu, estava num país estrangeiro e sequer entendia o que me falavam.
havia amor... um sentimento
e era como se isso me levasse para qualquer outro lugar quente e confortável
em que eu já havia sido e havia partido para não dormir mais
e, caso dormisse, acordasse outra, dolorosamente outra, que fosse
mas com amor suficiente
para seguir
...

pra chamar de seu, mesmo que seja eu... :: 121


::
mudei de assunto quando achei que devia esquivar
disse não a um pedido de carona furtivo
dei um abraço carinhoso de lado
.
arestas do mundo moderno: protegi-me seguramente no meu sentimento vazio
olhei diversas vezes para sua cara, sua boca, seu peito, seus cabelos, suas mãos
.
e era como se nada tivesse existido, nem aquele dia nem hoje nem sempre
sobrou só eu e meus recortes das palavras que mais gosto
.

qualquer coisa que se mova é um alvo... :: 120


esteve nesse não-lugar de novo
.
sua existência depende do olhar do outro:
ser visto para ter certeza
de que não é um fantasma
embora vague pela cidade sem rumo nem forma
sem sumo nem prosa
::

as coisas não têm paz... :: 119


o jeito é deixar
o tempo passar, a chuva lavar
e a falta de memória esconder...
embaixo de algum móvel
fechado em qualquer envelope
perdido logo ali, fora do controle:
no esquecimento remoto...



segunda-feira, 22 de abril de 2013

e o vento levou [me]... :: 118


eu na minha
eles em outra
eu sozinha
eles de vento em popa
.
é que a minha
já é outra
ficou a popa, voei com o vento...

é que narciso acha feio o que não é espelho... :: 117


dizem que a simetria
é a beleza disfarçada em perfeição
.
pra quem gosta de beleza
meia imagem basta:
num reflexo dobrado do espelho
.
pra quem gosta de simetria
meia palavra basta: sim

vou andar, vou voar pra ver o mundo... :: 116


nessa conversa surda
caio num cansaço
e grito num buraco
silencioso sem eco
:
todos os sons num estrondo vazio
.
não vai dar em nada
e eu canto pra subir [mais cedo]...

só não se perca ao entrar no meu infinito particular... :: 115


não seja tão distraído, rapaz
nem tudo que se vê
é o que se é
nem tudo que se é
é o que se deve ser
.
é definitivo: o mundo gira, devagarzinho, mas sempre
nesse movimento, até o infinito tem fim e depois se recomeça

quinta-feira, 18 de abril de 2013

a gente quer comer e quer fazer amor... :: 114




então ele vinha
e ela esperava...
.
ansiedade mórbida
comeu tudo que viu pela frente
que fosse diet...
.
é paixão, mas peraí
meu açúcar é doce que vale ouro
vamos devagar com isso...

terça-feira, 2 de abril de 2013

medo de morrer na praia depois de beber o mar... :: 113



o sol entra em áries
e as aves se preparam para migrar
como elas, eu vou, mas volto:
aprendizado de esperar...
:
calma, amor
estamos só a 34 do primeiro tempo
e, com essa chuva fora de época,
certamente haverá prorrogação...
:

segunda-feira, 18 de março de 2013

é só balançar que a corda me leva de volta pra ela... :: 112


o guarda-roupa era um mistério
lá ficava guardado o brilho que eu gostava de beber
e os desenhos das crianças, pregados com durex
.
na desorganização charmosa das estampas florais e listradas
eu afundava minha cabeça
e cheirava - o odor era único: perfumaria da mesbla
.
foi ali, naquelas visitas às escondidas que decidi tornar-me também mulher

nenhum aquário é maior do que o mar... :: 111

 .
eu jogo a rede
mas na lagoa os peixes urbanos estão mortos...
.
o sol já sai de aquário
numa  aurora boreal
de um rastro de luz em cenário
.
então, jogo a rede ao ar
e ainda restam vivos mil amigos imaginários
.