sexta-feira, 30 de novembro de 2012

eu que não sei quase nada do mar... :: 051


 sempre foi meio invertido, só não sabia exatamente onde.
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se chacoalho seu peito e seus pêlos nessa gaiola de costelas é porque quero ouvir aquilo que vem de dentro, mas sem palavras. naturalmente sacudo também sua cabeça, afundo os dedos nos seus ouvidos, tapo-lhe as narinas, afogo minha língua na sua boca: quero que digas como foi, porque foi, quero que seus olhos me vejam e batam como dois corações pulsantes. dois tamborins, dois pontos de mar azul.
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abra os olhos para que eu me veja melhor.

caía a tarde feito um viaduto... :: 050


 chamou: vem, sobe!
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não, melhor não... vou à pé
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seguiu andando... e pensando... de onde tirou a premissa de que "andar de bicicleta é igual a cair"?
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a liberdade, o vento no rosto, o equilíbrio sobre as rodas
e a incapacidade de viver tudo isso
com medo de se machucar...
.
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nesse instante, tropeçou no próprio pensamento e foi de cara no chão.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar... :: 049


 meu pai passou a vida construindo a mesma casa
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demoliu paredes, transformou fachada, subiu andares
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hoje sente saudade
da casinha simples de muro baixo, da vizinhança perdida
da infância que se viveu debaixo do coqueiro
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a casa, tal como ele, continua
preenchida dessas construções de vida que só podemos guardar mesmo na riqueza da memória
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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

porque quem gosta de maçã irá gostar de todas... :: 048


neste universo não-tátil
tudo faz-se lindo
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a nova era inaugurou-se
com o verbo "curtir"
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não há desassossego
nem feiúra, nem desprezo
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como a apple da eva seria vista em megapixels na rede-social que vislumbro da minha window?

domingo, 25 de novembro de 2012

coração é o quintal da pessoa... :: 047



voltemos ao começo do futuro próximo
do passado revisto e revigorado
do chão firme batido, da batida certa
do coração dentro do peito
::
fincou pés na grama com coragem
deixou o tempo criar raiz e 
segurou-se nos galhos ao vento.........

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ela pensa em casamento e eu nunca mais fui à escola... :: 046


de impulso, saiu pra dançar a vida
porque queria mais disso tudo
.
.
rodou, pulou, fez dupla
ele parou
.
ele parou de dançar antes da música acabar
e ela ainda queria mais..............................
mais disso tudo, disse tudo: desse tudo que é a vida pra dançar



o que eu adoro em ti é a vida... :: 045


falaram do tempo, como se fossem desconhecidos
e da vida, como velhos amigos de infância
.
trocaram poemas
declamados ali mesmo, na rua
.

um poeta estava nu dentro de uma bolha digital
o outro estava vestido de palavras dos pés à cabeça
.
manuel bandeira que os salve

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

trocou meu buquê de flores por um maço de cigarros :: 044


na feira: único lugar onde ainda a chamam de menina
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ele chegou meio cachorro-arrependido com a corbeille nas mãos
...
sorriu surpresa e pensou
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como não é feia
acreditou que ainda possui o amante
sendo assim, não se encaminha para um enterro
.
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e seguiu confiante...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

a pessoa é [definitivamente] para o que nasce :: 043

 .
o mar
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cheiro de liberdade
e gosto de lágrima
.
despiu-se e entrou
.
.
acordou cega com os olhos colados
por lágrimas de sal
.
deixou-se e saiu

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

sou ariano torto, vivo de amor profundo... :: 042


 no banheiro viu sob uma fresta da banheira um brinco. pegou. pensou em botar em cima da pia, mas depois desistiu, achou intrometido demais, invasivo. e encaixou-o de novo em baixo da banheira. talvez haja outra, pensou, talvez hajam outras... mas isso não lhe cabe. em conversa falou qualquer coisa que já terminou com uma moça. pareceu passado. mas as pessoas mentem.
.
eu é que não me aguento com essa mania de dizer a verdade.
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despediu-se com um beijo, carinhoso como a noite. nenhuma palavra cabia, mas na ânsia de verbalizar devolveu o carinho na palavra... e foi-se embora com a lacuna de qualquer resposta.

liberdade é pouco, o que eu quero ainda não tem nome... :: 041


correu
nem soube ao certo, mas correu
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em minutos moveu músculos que numa vida toda sequer sairam do lugar
.
.
tudo fora do lugar
agora
.
nunca mais o mesmo lugar
sempre

um sorriso, para ser sorriso, tem que ser efêmero... :: 040


decidiu ficar com o brilho passageiro
da purpurina nos olhos
.
quer a liberdade
de nunca mais vê-los
::
sonhadores?
voadores?
corpo em pirueta, em movimento, em dança, em vento...

e eu dividido, querendo ver o depois do ponto... :: 039


 ... batia, batia, e continuava batendo na porta
até que ele deu um tapa em sua mão estendida, mão solícita e disposta a fechar um acordo de paz
esse acordo desonesto de cavalheiros que fizeram por tantos anos...
ele não quer acordo, nem selo, nem começar, nem terminar
.
ele não sabe que existe um ponto
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suas mãos continuaram estendidas, alguns minutos, imóvel, na direção do seu peito.
não doeu, os olhos firmes olhavam ora a mão ora o olho dele. em vão.

porque metade de mim é o que penso, mas a outra metade é um vulcão... :: 038


paira no ar
porque é isso: estático e dinâmico
em um só corpo
.
é foto em livro de folhar
:
se contemplar, é imóvel
se acelerar, é animação
...
agito e atrito, como o encontro do rio com o mar...

tô me guardando pra quando o carnaval chegar... :: 037


prepara a fantasia com antecedência: palhaço
.
espera o ano todo pela semana de emoções:
flerta, dança, bebe, ri, beija, ama... 
tudo do ano todo. vive tudo de uma vez
.
e cansa
.
na quarta de cinzas
aproveita o disfarce e a maquiagem carregada para chorar também... as dores de um ano todo

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

esse rosto que eu gosto e que é só seu... :: 036


sinto falta do seu sorriso manso sobre mim
e do olhar doce que abençoa e acalma
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sinto falta mais que nunca de só estar
ao lado
pé descalço, areia da praia...
.
.
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deixo as lágrimas lavarem tudo que compartilhado já foi e do que será:
guardiã de tantos segredos, e medos e sonhos... meus, nossos, daqueles grãos de areia.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

descobri, de súbito, que pensar não é natural... :: 035

.
.
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onde estive? perguntava-se olhando o mar. acreditou tão cegamente em tudo na vida que nesse momento chegou a pensar que ela mesma pudesse ser só invenção de sua mente... não era.

a verdade é que não existem garantias, não existe nada escrito, nem mesmo a poesia que finge ler e pensa que escreve. não é possível ir embora porque não há lugar possível, pessoas assim não são pertencentes a nada nem a espaço algum, simplesmente seguem. o fluxo da vida que ela mesma estabelece sozinha, o rebanho caminha, o dia amanhece, o capim cresce no pasto para ser comido, e segue ruminando a vida...
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não pensar já seria uma dádiva hoje.

amar é mudar a alma de casa... :: 034



na minha casa as janelas estarão sempre abertas
as paredes serão azuis e o perfume lilás de alfazema da vênus
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lá os livros serão os guias e haverá algo de vermelho porque também o sou
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na casa o piso será de madeira clara
para os pés andarem nus...
haverá um altar, um buda, um tsuru, uma santa, um aquário: a nova era
e uma vista, qualquer vista de mim mesma

o presente é tão grande, não nos afastemos... :: 033


há muito queria dar-lhe um presente: o presente real
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o transformar o sonho em arte
a chuva em banho e a terra em plantação.
fazer do medo, a atenção e da dor, aprendizado.
transformar o movimento em dança
o caminhar em destino e o olhar, em janela da alma...
.
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o presente real é a sabedoria de estar e o viver sem temer

eu sei que as cicatrizes falam, mas as palavras calam... :: 032



o tempo de pensar
será o tempo físico de curar as feridas
depois, nada mais será dito
.
as cicatrizes podem ficar
mas as palavras vão emudecer
caso você não diga nada, caso você suma de vista
as feridas se fecharão. e eu também.
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