domingo, 23 de dezembro de 2012

tomou champagne e cicuta com comentários inteligentes... :: 077


pariu duas crianças imaginárias e
as deu para adoção num sanatório público.
depois comemorou em um piquenique na praia
e enterrou conchas como se fossem seus ossos.
em seguida, as concebeu de novo em seu ventre frio de onde elas não sairam nunca mais...
.
sim, o poeta já disse: só as mães são felizes.
eu acredito.

e fui tratando de me despedir, e sem demora fui tratando de aproveitar... :: 076


 
18:00
bateu o sino, sentou para esperar o fim do mundo, sabia que não acabaria antes da missa da tarde
19:00
 ainda era tarde, horário de verão, e isso a confundiu: será que o fim sabia do sistema implantado pelo homem?
20:00
homem, e pensou que o mundo acabaria com ela ali, sentada no sofá e sozinha
21:00
sozinha, e se deu conta de que o mundo podia acabar somente para ela que acreditara nessa estória
22:00
estória, lembrou das que sua mãe lhe contava para dormir, e aproveitou para recordar das pessoas da sua vida
23:00
vida, fez uma balanço, como os de fim de ano  e percebeu que ainda precisava de mais tempo
00:00
tempo... se deu conta de que havia esquecido de viver, pois sempre estava a espera de algo, inclusive do fim.

eu hoje joguei tanto coisa fora, eu vi o meu passado passar por mim... :: 075



tudo parece lento.
faltou ao trabalho e continuou a arrumar a casa...
- única coisa que assossega o peito -
.
arruma a casa com prazer e gosto
e aproveita para reconstruir-se junto
.
ajeita tudo como se fosse véspera de natal e ano novo...
véspera de começar-se outra vez

la dolce vita :: 074


é necessário dizer sobre a felicidade sorridente. essa que se faz em luz, em peito cheio de ar, em cheiros novos, na casa limpa, na rua livre, no caminhar doce...
.
não, nada aborrece. tente, se quiser, não aborrece.
há uma preguiça gostosa mesclada à vontade de ficar só um pouco mais... rindo!
.
uma espécie de euforia se dá em câmera lenta...
existe ânsia, mas tem paz
existe vida, e ela é simbolicamente doce, pelo menos, hoje
.

nem vem de garfo que hoje é dia de sopa... :: 073


pediu um chopp, sentou, acendeu o cigarro
com toda sua ironia e arrogância
.
deixou a lente em casa e veio nu com seus seis graus de miopia
para que ficasse ainda mais alheio a tudo
.
andava assim ultimamente: com a dor entalada e com revolta do mundo
na medida em que se sente insultado, cospe fogo de volta
.
ele não sabia, mas o bar se incediava enquanto ele dava o último trago no cigarro, na bebida e no rancor

sete coisas impossíveis antes do café da manhã... :: 072



um: fazer o backup da memória da vida
dois: comer um doce que não engorde
três: ter um espelho amigo sempre
quatro: poder voltar no tempo
cinco: cruzar as paralelas
seis: ter asas para voar
.
sete: ir a um lugar chamado país das maravilhas

você tem um olhar como se fosse natal... :: 071


a mentira do natal começa com a invenção do papai noel
e com as alucinações religiosas
.
passa pela hipocrisia das festas de família e pela troca de presentes
comprados com o incentivo das mentiras publicitárias cada dia mais violentas
.
por fim, aqui o natal de verão não parece aconchegante
como nos filmes do hemisfério norte
onde o natal de tão frio, neva, congelando os sentimentos.
::

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

no quadrado branco, vídeo, papelão, eu era o enigma, uma interrogação... :: 070


::
deixa de ler e passa a escrever compulsivamente
ao invés de entulhar a casa de livros.
procura uma ordem que não existe
::
tenta cronologicamente organizar sua vida em fatos
e preenche inutilmente cadernos em ordem
para não se perder de si mesmo
e lembrar quem já foi, só para continuar sendo...
.

o mundo é mesmo feito de arestas :: 069


.
recomeçar é sempre uma violência
.
devia privar-se disso
devia ser capaz de se proteger
devia esvaziar-se do desejo de começar outra vez,
de acreditar nas possibilidades do futuro
.
sabe que andou em círculos
mesmo assim, assume a brutalidade da vida e vai acreditando nos caminhos retos...
...

você me abre os seus braços e a gente faz um país... :: 068


.
sua sola do pé toca tão firme na terra
que pode voar a qualquer instante,
pode voar todos os dias, sem temer...
e regar suas raízes, ao mesmo tempo.
:
cria raízes como vínculo de si mesmo:
conexão de sentimentos
espalhados aleatoriamente dentro do corpo...

devagar com a louça que eu conheço a moça... :: 067


:
apaixono-me por essa coisa de ser eu mesma...
esse profundo incerto,
essa certeza superficial
daquilo que aparento, que sinto...
daquilo que movimenta meu corpo 
pra frente: em direção
ao espaço que há para se preencher de si.
:

por você... eu iria a pé do rio à salvador :: 066


cheiraria um batalhão
e mesmo assim o reconheceria pelo seu odor único:
institnto...
.
andaria quilômetros
tentando esquecer palavras que salpicam na minha mente, 
mas só quando páro elas me dão trégua...
::
só que não sei parar, não sei não ser.

il y a toujours quelque chose d'absent qui me tourmente :: 065



e na beira de tornar-me um ridículo:
pus-me frente a todos e chutei todas as paredes internas do meu corpo,
e quebrei todos os ossos da face, e cantei todas as canções de ninar...
e lembrei de todos os rostos como se os tivesse vendo pela primeira vez.
.
foi quando me vi refletido na iris dos seus olhos nus e assustados
.
apaguei-me quando fechou os olhos em movimento de gratidão ou medo...
tirando a vida que me restava como com um tiro certeiro no peito.


tudo é tão simples que cabe num cartão postal... :: 064


 cidade desenhada: sonho de morar num croqui
realidade árida da vida
no centro do peito do Brasil.
.
um pássaro, um avião
que pousa em riscos de arte em
branco, cinza e vermelho
em uma nova trilogia [das cores]...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

céu de brasília, traço do arquiteto, gosto tanto... :: 063


no meio do deserto
o arquiteto fez poesia
em desenho a mão livre
liberd.arte repetida
...
tem gente que vive 100 anos
tem gente que os 100 anos passam por cima
e tem o oscar, nome de troféu, que fez o século ter 104 anos.
.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

eu não gosto dos bons modos, não gosto... :: 062


pôs o vestido e saiu esvoaçante
maquiou-se no espelho retrovisor do carro
disse três palavrões sobre o cocô do cachorro na rua
sacudiu os braços pro ônibus parar.
cantarolava o samba do headfone em voz alta...
e por ora rebolava discretamente
enquanto deixava cair a alça no ombro direito com toda sua sensualidade desavisada...

enforcar-se é levar muito a sério o nó na garganta :: 061

 
pensou em morrer
.
pensou mais uma vez nessa alternativa
.
pensou, de fato, em nenhuma alternativa
porque morrer é não pensar [mais]
e pensar, ultimamente, tem sido perigoso...
:
é que, com frequência, pensa
que morrer parece mais fácil que mudar
.

deixa eu te amar, faz de conta que sou o primeiro :: 060

 
em véspera de fim de mundo
e a moça anuncia um leilão de sua pureza na internet
.
o valor é alto:
talvez nunca na história tenha-se emitido nota fiscal desse porte para tal produto
.
na minha época de menina
fim de mundo e virgindade só resultaria em romantismo exacerbado
.
mas, os tempos são outros...

eu perdi o meu amor para uma novela das oito... :: 059


 mais uma briga...
e ela se foi.
fez questão de dois objetos apenas:
a tv e a geladeira
.
uma, para manter a imaginação viva
através da vida dos outros...
.
a outra, para congelá-la.

por você eu largo tudo: carreira, dinheiro, canudo... :: 058

 :
não, não pude fazer o trabalho...
.
por quê?
.
porque estava amando, e era urgente...
precisava amar tudo de uma só vez
porque sabia que era breve
.
e como a urgência do trabalho é eterna e, portanto, nada breve...
amei durante a pausa [de um ano] do café.
:

domingo, 2 de dezembro de 2012

e o meu erro foi crer que estar a seu lado... :: 057

 
eu errei
.
diariamente o faço
.
sempre erro
.
erro na intenção do acerto
o que não diminui o erro
e o que só aumenta a dor de ter errado
mais uma vez...

se eu quiser falar com deus tenho que aceitar a dor :: 056

 
deus é um cara que mora
aqui dentro de mim
.
diariamente fala comigo,
mas finjo que não escuto
.
quando quero desabafar, ele me ouve
mas quase nada diz
.
freud devia ter um também...

...elemento terra, do mar se diz terra à vista... :: 055

 
essa gente que é agarrada na terra...
.
não a terra onde brota flor
terra bruta, onde avestruz mergulha a cabeça
terra teimosa, em que o arado arranha pra transformar
terra instável, com ira de terremoto
:
eu nem sei... nesses dias de terra seca
eu sou roupa no varal...

termina na hora de recomeçar, dobra na esquina no mesmo lugar... :: 054


deixo você ir embora
pouco te conheço, endereço...
.
não sei, aqui não chove mais, acabou o verão
te deixo inteiro, janeiro, fevereiro...
.
te gosto instável, inconstante
senão não seria o que é
o que foi, o que fomos.

eu só trabalho com achados e perdidos :: 053

 :
não te vejo no horizonte
porque és apenas
uma letra inicial com local e data
.
.
enquanto eu
sou lugar nenhum
e todos os dias
com nome e sobrenome
.

pois só quem ama escutou o apelo da eternidade :: 052


o silêncio sussurrou-le algumas verdades... ficara escandalizado
.
a freada do ônibus
o barulho do caminhão de lixo
o latido do cão do vizinho
o choro da criança
o cheiro do cozido no fogo
.
há vida além de si mesmo
.